Simples, histórico, tradicional

18 07 2010

Vamos lá, não há um fã de futebol e de games que nunca tenha se arriscado no famoso Elifoot. Nunca o fez? Pois está mais do que na hora de conhecer este que, sem querer, tornou-se uma verdadeira alavanca para os jogos manager no Brasil. Rápido, acessível a todo tipo de usuário, extremamente simples e com versões exclusivas brasileiras, o game, de origem portuguesa, até hoje ainda é lembrado com bastante carinho por muitos dos que atualmente tem o Football Manager como um de seus “jogos de cabeceira”.

No ano passado, em novembro, este blogueiro teve a oportunidade de recordar a história, detalhar e analisar uma das séries alternativas mais curiosas e importantes quando os assuntos são games e futebol, para a Trivela. Curiosamente, no ápice de Elifoot, era possível, vasculhando pela internet, encontrar aplicativos também bastante simples, de managers de Fórmula 1, que seguiam bem o princípio “elifootiano” – começar no pior possível, crescer e chegar no topo.

Vale a pena relembrar.

Simples, histórico, tradicional
Postado em 29/11/2009 às 12:29 por Lincoln Chaves

Após tanto a coluna falar sobre jogos manager, não poderia faltar um dos games mais famosos da gamesfera futebolística, e que, ainda que rudimentar, foi um dos responsáveis por tornar esse estilo de jogo mais comum por aqui. O leitor Fábio, que comentou no último texto, pode não saber, mas estava certo sobre qual seria o tema do próximo texto deste que vos escreve. É hora de recordar a saga do histórico Elifoot, jogo português que, neste 2009, completa 22 anos, e que, se não fomentou os jogos mais famosos já criados no estilo, foi claramente a matéria prima para os hoje mais conhecidos Masfoot e, principalmente, Brasfoot.

Primeiramente, é curioso tentar compreender o sucesso de Elifoot, especialmente porque o game desenvolvido em Portugal era, basicamente, um jogo em MS-DOS (!), onde nem mouse se utilizava (!!) e cada temporada parecia durar uma eternidade (!!!), devido à lentidão com a qual o cronômetro corria na tela. Lançado em 1987 por André Elias, programador luso, quando este tinha apenas 17 anos, o jogo ganhou notoriedade, principalmente, nos anos 90. Inicialmente produzido para consumo próprio, Elifoot se tornou uma diversão fácil para todo tipo de jogador.

Por quê? Primeiro, porque o arquivo cabia tranquilamente em qualquer computador, e poderia ser transferido facilmente pelos hoje quase extintos disquetes (diz-se aqui “quase” porque sempre há, como este que vos escreve, alguém que ainda resista às inovações e mantém seu drive A:/ ativo no PC). Além disso, o jogo era, apesar de vagaroso em linhas gerais, bem mais veloz e dinâmico que outros tantos existentes para computador. Não bastasse, permitia que mais pessoas pudessem jogar ao mesmo tempo, e, de quebra, era um estilo de game que estava longe de ser comum para a época.

Um dos primeiros Elifoots que ganharam evidência. Foto: Reprodução

Ao longo de sua história, Elifoot não perdeu o básico de seu gameplay: o jogador escala o time, selecionando a formação, e manda o grupo para o jogo. A equipe inicial, escolhida aleatoriamente, está na 4ª divisão, e a missão é levá-la à elite. Para isso, pode, ainda, efetuar algumas contratações, sempre de olho no orçamento. À medida que progride, o jogador ganha notoriedade como treinador, e pode ser convidado a assumir times que estejam em divisões superiores, mas que passam por situações complicadas. Simples e básico, não é difícil entender esse inesperado sucesso.

Com a internet, Elifoot rodou o mundo, e ganhou um destaque absurdo no Brasil. O fato de o jogo ser totalmente em português fez com que, no desenrolar da década de 90, pouco antes de sua metade, versões “abrasileiradas” do jogo surgissem, com as equipes do País. Os Elifoot I e, especialmente, Elifoot II, ajudaram o game a se tornar famoso e a salvar dias (tardes e noites) de tédio de muita gente. Havia 32 equipes ao todo, divididas nas quatro divisões. Ao mesmo tempo, elas se enfrentavam entre si, num mata-mata, com jogos de ida e volta, na Copa do Brasil.

Nessa época, os leilões de jogadores baseavam-se em quem oferecesse o melhor salário. Evidentemente, os iniciantes, ao ver um atacante Túlio com força 40 (as variações vão de 1 a 50), davam-lhe o mais alto ordenado possível e, via de regra, tinham sucesso. O que geralmente passava despercebido, porém, era o valor do passe do jogador. Algo que só seria sentido algumas rodadas depois, quando o caixa do clube entrava em um nível negativo duríssimo de ser recuperado.

O boom: Elifoot 98

Mas o grande sucesso da série se deu, tanto no Brasil — algo que o próprio Elias, em uma entrevista ao jornal Público, de Portugal, confessou, de uma maneira inesperada — em 1998, quando chegava à internet o mais famoso jogo da série: Elifoot 98. O número de times foi aumentado astronomicamente, seguindo a tendência de um futebol cada vez mais internacional, e foi criada uma liga “Distrital” para suportar essas equipes. A Taça ganhou mais fases e se tornou um mata-mata ainda mais feroz, com jogo único para todos os confrontos. E a quarta divisão “ganhou” uma zona de rebaixamento.

Times de Brasil, Inglaterra, Espanha, Itália, França, Bélgica, Escócia, dentre outros tantos países, foram adicionados, e, de quebra, o jogo ganhou novas possibilidades. Surgiam, aí, as substituições no intervalo, a escalação individual dos jogadores, a escolha minuciosa de contratações para seu time, e a aceleração “Ultrassônica” das partidas, o que permitia uma sequência enorme de temporadas dentro de apenas uma hora de jogatina. O suficiente para títulos, fracassos e demissões — as famosas “Chicotadas Psicológicas”. E o mais curioso é que, mesmo com o surgimento, na época, de outros games de futebol, o simplíssimo Elifoot seguia extremamente popular.

Elifoot 98: para muitos, o maior da série e uma das maiores referências em jogos manager. Foto: Reprodução

Duas técnicas, em especial, eram as mais comuns para os fãs. A primeira era encher o time de jogadores baratos e deixá-los ganharem força aos poucos, para, após certo momento, utilizá-los e, se possível, negociá-los. Teoricamente, é um modo que prevê um sucesso em longo prazo, já que também se deverá contar com a sorte de os demais jogadores do elenco darem conta do recado enquanto os novatos se desenvolvem. A outra era vender alguns atletas de nível mediano, mas que não venham a comprometer o time, e comprar um atacante com força bem acima da média da 4º divisão (acima de 20, por exemplo). Com isso, aumenta-se as chances de marcar gols e de se ter o artilheiro da temporada — que pode render 3 milhões de euros aos cofres da equipe.

Acontece que, percebendo que o jogo poderia render trocados, André Elias, apesar de habilitar o game básico gratuitamente, decidiu licenciar essas principais novidades, dando, a cada versão baixada, uma contra-senha que, informada e devidamente paga ao autor, gerava uma senha que daria acesso às novidades. O tiro não deu muito certo. Não por ter feito o jogo perder espaço (pelo contrário), mas porque logo surgiram programas que criavam senhas para cada contra-senha gerada pelo game. Ainda assim, Elias não pode reclamar muito, já que a versão 98 fez a série explodir de vez. E sim: por mais que o jogo em si não aparecesse na tela, a tensão que dava o giro do cronômetro, por vezes muito lento, aliado à necessidade do gol(o), possuem uma emoção singular.

Perda de espaço

O trabalho de André Elias não acabou por aí. Elifoot ganhou outras versões ao longo dos anos 2000, e que foram se aperfeiçoando, cada uma um pouco, apesar de o espaço ter sido ocupado, de vez, pelos games manager mais equipados, como Championship Manager e, posteriormente, Football Manager. Em 2002, as ligas passaram a ter 10 equipes em cada divisão e, em 2006, surgiram as ligas simultâneas. Exemplificando: se no Elifoot 98, o jogador escolhia se iria jogar com times de um ou mais países.

Se jogasse com três nações, os times desses três locais seriam divididos por todos as divisões, de acordo com suas forças médias. A partir de 2006, se fossem escolhidas as ligas de Brasil, Espanha e Itália, cada uma teria sua própria competição, embora o jogador pudesse cair em qualquer um desses países. Por fim, em 2008, a última das inovações foi a versão Interligas, onde se pode jogar Elifoot on-line, com os resultados publicados em um ranking atualizado no site oficial do jogo, o www.elifoot.net.

O mesmo formato foi atualizado para a versão 2009, que ainda está disponível na página supracitada. Só que dessa vez, o jogo é pago (valores variam de R$ 24 a R$ 32, para os mais audaciosos interessados). Ainda assim, mesmo com as interessantes evoluções, a recomendação do colunista, especialmente para eventuais iniciantes, é mesmo o mais tradicional dos Elifoots, o 98.

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