Locução virtual

13 09 2010

Ps.: Postado originalmente em Trivela.com.br

John Motson foi um dos marcos na narração de games de futebol, atuando por aproximadamente 10 anos nas séries FIFA e World Cup, da EA Sports. Foto: Divulgação

Locução virtual
Postado em 5/9/2010 às 12:33 por Lincoln Chaves

Dando uma breve interrompida na série de textos e entrevistas sobre a presença brasileira no Pro Evolution Soccer 2011, a coluna vem retomar nesta semana um dos mais curiosos e marcantes atrativos dos games de futebol. Às vezes, de fato, este atrativo não é dos mais bem desenvolvidos e motiva os jogadores a colocarem a televisão no mudo. Mas quando bem feita – algo que é cada vez mais desenvolvido e aprimorado pelas equipes técnicas responsáveis pela produção dos games -, a narração chega a ser tão memorável – até mais – quanto o jogo propriamente dito.

Claramente foi-se o tempo que considerava-se narração o mero pronunciar de palavras como “Goal Kick”, “Throw In”, ou mesmo o “Goal”. Hoje esse processo evoluiu de tal forma que para vários jogadores já há até um texto específico lido pelo narrador virtual, exaltando alguma de suas qualidades. Claro, não passam de gravações pré-estabelecidas e que não irão muito além do que já falam. Porém, não deixam de, aprimoradas ano a ano, inserir cada vez mais o clima do jogo na experiência de que está com as mãos no joystick.

A inserção de narrações em games de futebol – entendendo narração com uma informação sonora – veio mesmo na década de 90. Até então, as opções de som nos jogos futebolísticos eram mesmo os gritos (?) das torcidas, o contato da bola com o pé do jogador (inicialmente “estático”, ganhando depois contornos reais de um toque) ou o apito do juiz. Em alguns casos, havia até a preferência por uma musiquinha de fundo. O máximo que poderia se ouvir gritar era um “Goal”. Nada além disso. Falamos aqui, porém, ainda de 1992.

As primeiras evidências mais marcantes de narrações surgiram em 1995, no histórico International SuperStar Soccer Deluxe. Além dos gritos de gol, falta e punições (“Yellow Card!”) – que já eram um avanço considerável presenciados na versão anterior do jogo – International SuperStar Soccer -, surgiram os destaques sonoros para chutes de longa distância, lançamentos (“Long shot!”), e o arremate propriamente dito (“He shoots!”). Mesmo as entradas mais violentas ganharam uma pergunta indignada do narrador: “No fault?”.

E aí, vale uma “menção honrosa” àquela que é, pelo menos para os brasileiros, uma das mais recordadas narrações é, inquestionavelmente, a de uma das versões “não-oficiais”, por assim dizer, de ISS Deluxe: o famoso “Campeonato Brasileiro 96”, com as equipes do Brasileirão de 1995 e frases como “Grande jugada!”, “Chutou, que lindo!” e o que até hoje é traduzido como “Viva Senna”. Há quem considere que foi efetivamente a primeira vez que as narrações – talvez por estas serem em um portunhol dos mais estranhos, mas engraçados – ganharam maior atenção por aqui.

Se a evolução motivou a rival da Konami, a Electronic Arts, a se mexer, não é algo comprovado. Mas o fato é que para FIFA 96, primeiro da franquia lançado após ISS Deluxe, já se programou um aprimoramento bastante interessante no que se entendia por narração. Era aquela a primeira participação do famoso narrador inglês John Motson na série onde permaneceria até a edição 2006 do game, estando também nos jogos oficiais da Copa do Mundo lançados pela EA Sports, “estreando” em Mundiais em World Cup 98.

A entrada de John Motson foi um marco importante no que diz respeito à narração nos games de futebol. Primeiro porque estava lá um nome que já era referência no segmento. Segundo, pelo fato de ser um dos principais atos no sentido de aproximar o game do futebol “real” – e nada melhor, portanto, do que um narrador – acompanhado do comentarista Andy Gray – “original” para dar um toque ainda maior de simulação esportiva na brincadeira. Além disso, comentários pós-lances de chute ou mesmo entradas violentas, e a citação dos nomes dos jogadores passaram a ser comuns.

John Kabira, o "mito" da voz no PES. Foto: Divulgação

Mas a Konami não parou no tempo e se os ocidentais vinham com Motson, os japoneses apresentavam ao público mundial o também famoso Jon Kabira, outro proveniente da mídia nipônica, e até hoje é responsável pela narração da versão oriental do game. E a cada jogo, Kabira adicionava novos termos aos seus curiosos gemidos quando o atacante invadia a área rival com facilidade, ou o já tradicional “Shuuto!”, antes dos chutes. Há fãs de Pro Evolution Soccer que até hoje preferem ter os jogos narrados pelo japonês, pela ligação até afetiva com versões antigas.

O sucesso que as narrações ganharam no Brasil aos poucos fizeram com que profissionais daqui começassem a ser convidados para participar dos jogos. Milton Leite, da SporTV, deu o pontapé inicial em FIFA 99 para PC. Aliás, desde então, a série sempre contara com narradores brasileiros (na versão para computador). No FIFA 10, Nivaldo Prieto, da Bandeirantes, fez dupla com Paulo Vinícius Coelho, o PVC, da ESPN Brasil. Mais: na edição 2009, os áudios em português foram conteúdos adicionais gratuitos para PS3 e Xbox 360 via download em suas redes online.

Desde 2010, por sua vez, Pro Evolution Soccer e a Konami já dava sinais de que poderia vir com alguma novidade neste sentido, logo, logo. Na ocasião, o game contou com a primeira narração “oficial” em português (não, as versões de Andre Henning e Galvão Bueno, embora tenham ficado famosas, não eram oficiais), por intermédio do locutor Pedro Sousa e do ex-jogador e comentarista João Vieira Pinto, ambos portugueses (o jogo também é popular por lá). No Brasil, a aceitação encontrou alguma resistência, considerando que a dupla “não passava emoção” à partida.

E justamente no ano que a EA Sports, considerando que o retorno financeiro dos games para computador, principalmente em virtude da pirataria, não valia um novo investimento nesse sentido, PES virá pela primeira vez com narradores brasileiros: Sílvio Luiz e Mauro Beting. Em entrevistas recentes, os dois confirmaram que as gravações foram feitas há quatro meses e terão alguns de seus bordões mais conhecidos. Será que teremos um “pelo amor dos meus filhinhos!” após um incrível gol perdido? Mais uma novidade que, aliada à presença da Libertadores, aumenta ainda mais as expectativas, no Brasil para PES 2011.

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Que tal relembrar um pouco desses históricos narradores?

John Kabira (Konami) – narração “especial” no PES 2009

John Motson (EA Sports) – vídeo “musical” com trechos de narrações do inglês