Futebol na rede (II)

9 06 2010

Continuando com a reprodução de algumas da colunas deste escriba na Trivela, é a vez agora da segunda parte do especial sobre games nas redes sociais. O destaque fica por conta de que, aqui, foi possível conversar diretamente com profissionais envolvidos no marketing que permeia o conceito desses jogos, além de se propor uma reflexão sobre a própria indústria de advergames brasileira, acerca do melhor aproveitamento da ferramenta futebol, tão difundida no país.

Obs.: Vale lembrar que o artigo é de fevereiro, ocasião, aliás, em que o Bola Social, jogo que aqui será retratado, tinha acabado de chegar ao Facebook (hoje está disponível também no Orkut).

Segue abaixo!

Futebol na rede (II) 
Postado em 21/2/2010 às 11:03 por Lincoln Chaves

Continuando os comentários sobre os mais novos fenômenos dos diversos sites de relacionamentos — os games de redes sociais —, dessa vez, o assunto será o Bola Social Soccer, aplicativo por enquanto disponível apenas no Facebook, mas que vislumbra chegar também ao Orkut. Com relação ao Joga Craque, são grandes as diferenças, e, pode-se dizer, é um jogo até mais completo do que o game avaliado na última coluna. Mas não é só aí que estão as peculiaridades.

Em linhas gerais, é um novo jogo ao estilo RPG, em que os jogadores devem subir os níveis através de missões, superar os adversários nas partidas e serem os melhores do game. Algo que também é previsto em Joga Craque. Ocorre que Bola Social Soccer possui diferenças bastante claras. Primeiramente, não se é apenas um atleta com o intuito de ser um profissional dos campos, mas se é uma espécie de gerente de todo um elenco.

Logo que se entra no game, o jogador pode ajustar algumas das configurações do jogo, clicando na chave inglesa que fica logo ao lado do número que indica o nível, no canto alto direito da tela. Lá, pode-se mudar o idioma, permitir ou não sons, e determinar a qualidade da imagem — algo recomendável de ser visto logo no início de qualquer atividade, conforme for a configuração do PC em questão e mesmo a qualidade da internet.

Desta feita, o próximo passo é ir na “Administração” para configurar a equipe, dando-lhe nome, selecionando as cores e — um dos pontos mais importantes aqui — escolher o patrocinador. E na lista, aparecem três nomes bem conhecidos: FOX Network, Allianz e Coca-Cola. Cada uma possui um valor em Bollars (moeda do game) a ser pago a cada 24 horas e alguns “bônus”, que podem ser adquiridos conforme objetivos forem sendo atingidos.

Ainda há muitos itens e locais do jogo a serem habilitados, como a cidade dos torcedores, o laboratório, a academia e o mercado, além do Modo Carreira, para quem quer tentar a sorte sozinho. No entanto, é possível desafiar os amigos para jogos de 90 minutos “virtuais”, que, na verdade, são 90 segundos. Na partida, o controle é, basicamente, como num jogo normal de PC: usam-se as setas e o teclado para executar as ações. Com as vitórias, ganham-se Bollars e “torcedores”, que equivalem ao que, em RPGs, é conhecido por experiência.

Do ponto de vista “técnico”, é um jogo bem interessante dentro de sua proposta. Em comparação com Joga Craque, Bola Social tem a opção de se realmente jogar as partidas, ainda que o confronto em si dê algumas travadas, o que é positivo. Todavia, para quase todo lugar que se clique, há uma às vezes nem tão breve tela ao estilo “Loading, Please Wait”. É, em linhas gerais, um game com uma linha mais completa que o “rival” do Orkut, mas que necessita de um pouco mais de tempo hábil dos interessados.

De olho no business

Mas por que a parte dos patrocinadores, acima abordada, é tão relevante no game? Porque ela age diretamente no principal dos motes de Bola Social Soccer, que é a utilização do jogo como estratégia comercial. Algo que não chega a ser incomum, visto que o meio dos advergames é até bastante trabalhado, inclusive no Brasil, mas pouco é destacado na mídia especializada, até pelo grande foco desta ser os softwares next-gen (leia-se: para PS3, Xbox 360 e Wii), e, especialmente na parte sul do planeta, ainda é algo recheado de dúvidas por parte de possíveis interessados.

Esse segmento (games como estratégia comercial) é um que tem se mostrado mais “palpável” a indústrias ainda em desenvolvimento na área digital, como é o caso da argentina Three Melons, produtora do Bola Social, e outras tantas do Brasil. Primeiro por não exigir, ainda, exuberâncias visuais e de jogabilidade. E segundo: é uma forma, com a qual se está tendo sucesso, de inserir, aos poucos, o game em um cotidiano mais casual, em lugares onde os jogos, mesmo tão presentes, são enxergados ainda como hardcores.

E por que “se meter” nesse meio dos games? Em conversa com a coluna, o gerente de operações de produtos da FOX no Brasil — empresa responsável por esse “planejamento comercial” do game —, Miguel Dorneles, explicou que é possível agir sob duas óticas: a de uma solução diferenciada de mídia (algo buscado por anunciantes da companhia, conforme Dorneles), e a da associação da marca, no mercado, à inovação. As “soluções diferenciadas” são voltadas, nesse caso, à Allianz e à Coca-Cola, duas das principais anunciantes da empresa no Brasil e empresas que embarcaram no projeto do Bola Social.

Como se objetiva, nas palavras do gerente da FOX, “conquistar um novo nicho de audiência que represente um perfil demográfico relevante para as marcas anunciantes”, a opção acabou rumando ao futebol, pela relação natural com a Copa do Mundo, usando o cenário do aplicativo para a exposição das marcas, como a réplica da Allianz Arena em eventuais torneios on-line, e o bônus por goleadas concedido a quem escolher a Coca-Cola como patrocinador, na seção “Administração”.

A Allianz, também conforme contato com o colunista, por intermédio de sua assessoria de imprensa, avalia ser possível impactar quase um milhão de pessoas em seis meses com a atuação no jogo. Conforme o documento encaminhado pela empresa, nas palavras da superintendente de marketing da companhia, Ariane Landim, “os games possibilitam uma experiência interativa com a marca e são um fenômeno de alta penetração no target (ou seja, no público-alvo) adulto”.

Como se vê, a visão acerca do universo dos games está em constante evolução, e, especificamente no Brasil, está bem clara a intenção de impactar o público através do futebol. Tal como os anúncios em transmissões televisivas ou as placas nos estádios, o meio dos games se mostra como um campo possível, para, por intermédio do desporto bretão, alcançarem-se novos públicos — às vezes, nem tão ligados assim na bola, e simplesmente adeptos da internet.

Incentivo

No primeiro momento, o resultado soa positivo. Segundo números oficiais da FOX, o jogo ultrapassou os 70 mil usuários em duas semanas desde o lançamento em modo beta (ou seja, ainda com alguns testes a serem feitos), na metade de janeiro, e o Brasil é o país com mais usuários. Uma eventual manutenção dos números pode ser um incentivo interessante à produção, por aqui, de novos jogos, sejam eles de futebol ou não, e um convite às empresas a apostarem nos games como ferramentas de marketing.

Como se vê, nenhum dos aplicativos retratados nessa e na última coluna são brasileiros, ainda que já façam sucesso por aqui. Todavia, o potencial e a criatividade da indústria brasileira são reconhecidos inclusive no exterior, apesar das parcas estruturas, e não são poucas as marcas interessadas em ingressar, de um modo fora do convencional, no universo digital. Além disso, o segmento dos advergames é onde, por aqui, há um relevante know-how. E o futebol é uma paixão nacional. Por que não aproveitar a tendência e unir o útil ao agradável?